Entenda como o diálogo aberto e a escuta ativa podem transformar a relação entre jovens, escola e família
Falar sobre sexualidade com adolescentes ainda é um tabu em muitos lares e instituições de ensino. No entanto, como explica Priscila Morais, psicopedagoga e coordenadora pedagógica da EDF – Escola do Futuro Brasil, é justamente essa ausência de conversa aberta que tem deixado muitos jovens vulneráveis a informações distorcidas, inseguranças e situações de risco. “A família precisa estar aberta para conseguir conversar, sem nenhum tabu. E a escola também”, destaca. Mais do que biologia, falar de sexualidade é falar de respeito, de limites e, principalmente, de escuta.
Diálogo sem tabu: a base de tudo
Para Priscila, o ponto de partida para uma sexualidade saudável é o diálogo. Parece simples, mas ainda é um dos maiores desafios dentro das famílias e das escolas. “Por vezes, a escola se coloca num papel de receio de falar sobre o tema por conta da própria escola ou por medo da reação das famílias. Mas a escola precisa, sim, ter ações onde assuntos relacionados à sexualidade possam circular, para os alunos colocarem suas dúvidas, quebrarem tabus — até mesmo em relação às brincadeiras”, explica.
O silêncio ou a repressão criam um ambiente onde os adolescentes se sentem envergonhados ou culpados por terem curiosidades naturais. Isso os leva a buscar respostas na internet ou nas redes sociais, onde nem sempre o conteúdo é confiável. “Hoje em dia, eles sabem muita coisa. E, às vezes, muita coisa distorcida. Porque o que eles acessam nas redes alcança os adolescentes de formas que, às vezes, a gente nem imagina”, alerta Priscila.
A escuta ativa, sem julgamentos, é essencial nesse processo. “Realmente ouvir. Escutar, primeiro, tudo o que eles já sabem. Procurar não julgar, para que se sintam à vontade para falar. Porque, a partir do momento em que a gente emite um julgamento, eles deixam de compartilhar o que sabem.”
Informação científica e empatia como caminho seguro
O excesso de desinformação é uma das grandes armadilhas para os adolescentes. Segundo Priscila, muitos chegam à puberdade sem saber o básico. “Desde um menino que não sabe reconhecer o órgão genital feminino até outros que não sabem o que é menstruação ou como cuidar da própria higiene. As meninas também, muitas vezes, não sabem.”
Essa lacuna pode gerar consequências sérias. Quando os jovens não têm acesso a informações corretas, ficam mais expostos a experiências negativas e até a situações de abuso. “Há um tabu muito grande em falar sobre o órgão sexual masculino também. Isso pode causar muitas interpretações equivocadas na cabeça deles. E, por não saberem a verdade, acabam abrindo espaço para várias outras ideias absurdas”, afirma.
Por isso, o papel da escola e da família é, também, desmistificar. “A gente precisa mostrar, com base na ciência e nos caminhos positivos, tudo aquilo que já pode estar distorcido na mente deles”, afirma Priscila. Mais do que informar, trata-se de acompanhar, de ajudar os jovens a desenvolver senso crítico diante da avalanche de conteúdos que consomem todos os dias.
Atenção aos sentimentos, limites e comportamento
A sexualidade não diz respeito apenas ao corpo, mas também aos sentimentos, aos afetos e aos limites. E é justamente aí que entra a empatia como ferramenta indispensável na orientação. “É preciso falar sobre sentimentos, sobre limites, sobre o que é o seu corpo, o que é o toque, o que é uma forma gentil e o que é uma forma desrespeitosa. Tudo isso precisa ser dito, conversado e ouvido, para que eles possam identificar padrões de comportamento nos outros que os limitam ou constrangem.”
Priscila chama atenção para um ponto essencial: muitos adolescentes não conseguem reconhecer quando estão sendo desrespeitados. Quando há abertura para o diálogo, é possível conversar até mesmo sobre os incômodos e as pressões que enfrentam no dia a dia. “Falar sobre o que incomoda, sem julgar. Ouvir, para que a gente consiga orientar os caminhos possíveis. Talvez eles não encarem tudo aquilo como verdade absoluta, mas a sementinha da reflexão já estará plantada.”
Além disso, manter o canal de conversa sempre aberto, sem que ele vire um sermão, é o que permite que os jovens se sintam à vontade para buscar orientação quando precisarem. “É importante deixar o caminho livre para a conversa, para que se sintam confortáveis em trazer as questões que causam pressão, ansiedade… Caso contrário, eles simplesmente não vão falar.”
Redes sociais, exposição e os riscos invisíveis
Priscila também alerta para a maneira como os adolescentes se expõem nas redes sociais — e o quanto isso pode ser perigoso. Em tempos de selfies, vídeos curtos e desafios virais, o risco da superexposição é real. “A exposição exagerada, principalmente nas redes sociais, pode ter consequências incontroláveis depois”, adverte.
Ela ressalta que muitos adolescentes ainda não têm maturidade para entender essas consequências de longo prazo. “O córtex pré-frontal deles não está totalmente formado para avaliar riscos futuros. Então é preciso explicar, não apenas dizer ‘não poste’. Tem que dizer o porquê.”
Hoje, com os avanços da inteligência artificial, os riscos vão além do vazamento de imagens íntimas. “Pode, sim, acontecer de alguém manipular uma foto, colocar frases ofensivas ou até gerar vídeos com ações falsas usando IA. Por isso, é essencial que aprendam a se preservar e a reconhecer abusos — mesmo os mais sutis — nas redes sociais.”
Mais uma vez, tudo retorna ao ponto inicial: escuta e conversa. “No fim, tudo se resume ao diálogo. Um diálogo aberto, responsivo e que ofereça espaço para uma escuta ativa”, conclui Priscila.
A orientação sobre sexualidade na adolescência não deve ser uma aula isolada nem uma conversa pontual. Deve ser um processo contínuo, construído com confiança, afeto e escuta. Porque, no fundo, o que os adolescentes mais precisam não são respostas prontas, mas um espaço seguro onde possam ser ouvidos, compreendidos — e guiados com empatia.




