Em meio à presença crescente das telas e redes sociais, diálogo sem julgamentos ajuda crianças e adolescentes a procurar a família diante de dúvidas e problemas.
A capacidade de conversar com os filhos antes que dificuldades se tornem maiores ganha importância em uma rotina marcada pela presença constante da internet e das redes sociais. Mais do que estabelecer regras, construir uma relação de confiança pode fazer diferença para que crianças e adolescentes procurem os pais quando enfrentam problemas, cometem erros ou se deparam com situações que não sabem como resolver.
“Nossos filhos precisam de atenção e muitas vezes clamam por ela diariamente. Parar por um momento para escutá-los de verdade, sem mexer no celular ou assistir à televisão, demonstra que estamos realmente presentes e interessados no que eles têm a dizer”, afirma Luciana Poli, assistente de Coordenação da Escola do Futuro Brasil.
A preocupação também passa pelo ambiente digital. Dados da TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, mostram que 45% dos pais ou responsáveis por usuários de internet de 9 a 17 anos afirmaram que os filhos tiveram contato com propaganda ou publicidade online considerada inadequada para a idade.
Confiança se constrói nas pequenas conversas
A abertura para falar sobre um problema dificilmente surge apenas no momento de uma crise. Ela é resultado da maneira como os adultos recebem as histórias, dúvidas, conflitos e erros compartilhados no cotidiano.
Para Luciana, ouvir também significa demonstrar que dizer a verdade não elimina a necessidade de orientação, mas não deve transformar toda conversa em punição.
“Os filhos precisam perceber que os pais estão ali para orientar e mostrar o caminho certo, e não apenas para brigar ou punir. Enquanto falarem a verdade, poderei protegê-los e ajudá-los a perceber onde estão errando”, diz.
Na prática, atitudes simples podem favorecer esse vínculo: deixar o celular de lado durante uma conversa, evitar interromper imediatamente, perguntar antes de tirar conclusões e permitir que o filho termine de explicar o que aconteceu.
Quando falta diálogo, outras referências ocupam espaço
Se crianças e adolescentes não encontram abertura dentro de casa, dúvidas e dificuldades não desaparecem. Amigos, redes sociais, influenciadores, comunidades digitais e outras pessoas podem acabar ocupando esse espaço — nem sempre com referências adequadas.
“Acredito que, muitas vezes, eles não precisam necessariamente de uma solução imediata, mas de alguém que esteja disposto a ouvir sem julgamentos. Quando não encontram esse espaço dentro de casa, podem buscar respostas e acolhimento em outros lugares ou pessoas, que nem sempre serão referências positivas”, afirma Shirley Miranda, assistente de Coordenação da Escola do Futuro Brasil.
Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado em 2024 a partir de dados de quase 280 mil jovens de 44 países e regiões, apontou queda na proporção de adolescentes que relatavam alto apoio familiar: de 73% em 2018 para 67% em 2022. O levantamento também relaciona redes de apoio mais fortes a melhores indicadores de saúde mental entre os jovens.
Escola também integra a rede de apoio
Embora não substitua o papel da família, a escola pode contribuir para identificar mudanças de comportamento e oferecer um espaço seguro de escuta. Professores e outros profissionais convivem diariamente com os estudantes e, muitas vezes, percebem sinais que passam despercebidos em outros ambientes.
“A escola também precisa ser um lugar de escuta, acolhimento e segurança. Crianças e adolescentes passam grande parte do seu dia na escola e, muitas vezes, acabam compartilhando com professores e colaboradores situações, sentimentos e dificuldades que não conseguem expressar em casa”, afirma Shirley.
Para ela, essa atenção deve ir além do desempenho acadêmico. “A escola não substitui o papel da família, mas pode ser uma ponte importante para fortalecer esse diálogo e ajudar o aluno a não se sentir sozinho diante das suas dificuldades.”
Em uma geração exposta a diferentes fontes de informação e influência, manter o diálogo aberto dentro de casa ganha uma dimensão de proteção. A confiança construída nas conversas mais simples pode determinar a quem uma criança ou adolescente recorrerá quando enfrentar uma situação realmente difícil.