





Encontro com famílias discutiu prevenção, sinais de sofrimento e importância de criar ambientes em que crianças e adolescentes se sintam seguros para pedir ajuda
Falar sobre saúde emocional de crianças e adolescentes apenas quando surge uma crise pode ser tarde para construir vínculos de confiança. Escuta, presença, diálogo e uma rede de apoio formada por família, escola e profissionais são recursos que precisam fazer parte da rotina, especialmente diante de situações de sofrimento emocional, bullying, autolesão ou desesperança.
O tema esteve no centro de uma palestra ministrada pelo Rev. Leonardo Veríssimo, pastor e psicólogo, durante um dos encontros do Pais que Oram, iniciativa realizada na Escola do Futuro Brasil. O grupo reúne familiares semanalmente, às terças-feiras, com os responsáveis pela Capelania da instituição, para momentos de oração pela escola e pelos estudantes.
Realizado no contexto do Setembro Amarelo, o encontro teve como tema “Toda Vida Importa” e propôs uma reflexão sobre prevenção e cuidado que não se limita ao mês dedicado à conscientização.
Sofrimento nem sempre é facilmente percebido
Um dos pontos discutidos foi que pessoas aparentemente saudáveis também podem atravessar períodos de sofrimento, desesperança e perda de sentido. Para pais e responsáveis, isso reforça a importância de observar o jovem para além de comportamentos, desempenho escolar ou resultados acadêmicos.
Entre os fatores de risco abordados na palestra estiveram bullying e cyberbullying, histórico de autolesão ou tentativa de suicídio, transtornos relacionados à saúde mental, alterações do sono, pressões sociais e emocionais e o medo de não corresponder às expectativas dos outros.
A necessidade de “performar” diante dos colegas também foi discutida. Crianças e adolescentes podem sentir que precisam corresponder a determinados padrões para serem aceitos, aumentando a pressão em uma fase já marcada por mudanças emocionais e sociais.
O encontro chamou atenção ainda para uma dificuldade que pode agravar essas situações: nem sempre crianças e adolescentes se sentem confortáveis para pedir ajuda. O medo de parecer fraco, diferente ou incapaz pode levar o jovem a silenciar justamente quando mais precisa ser ouvido.
Pais podem construir um ambiente seguro para o diálogo
Diante desse cenário, uma das principais reflexões apresentadas às famílias foi sobre o tipo de ambiente construído dentro de casa.
Mais do que ter respostas prontas, pais e responsáveis podem demonstrar disponibilidade para ouvir e criar condições para que os filhos compreendam que podem falar sobre dificuldades sem receio imediato de julgamento.
A proposta é que mensagens como “eu posso falar”, “eu posso pedir ajuda”, “eu não serei julgado” e “eu não estou sozinho” sejam percebidas pelos filhos não apenas no discurso, mas na convivência.
Escutar antes de julgar, acolher antes de corrigir e estar presente antes que uma crise se instale foram alguns dos princípios trabalhados durante o encontro.
Também foram destacados fatores de proteção, como ambientes livres de bullying, desenvolvimento de habilidades sociais e de comunicação, espaços seguros para conversar sobre sentimentos, redução do estigma relacionado à saúde mental e construção de uma rede de apoio familiar, escolar, espiritual e profissional.
Cuidado precisa continuar depois do Setembro Amarelo
Embora campanhas de conscientização tenham papel importante ao colocar determinados assuntos em evidência, a palestra reforçou que a atenção à saúde emocional precisa permanecer durante todo o ano.
O Setembro Amarelo pode abrir espaço para conversas difíceis, mas presença, acompanhamento e disponibilidade para buscar ajuda quando necessário são atitudes que dependem de continuidade.
Nesse sentido, família e escola não substituem acompanhamento psicológico ou médico quando ele é necessário. Podem, porém, participar de uma rede capaz de perceber mudanças, abrir canais de diálogo e encaminhar o jovem para atendimento adequado.
A abordagem do encontro também incorporou a perspectiva cristã. A partir da passagem de João 10:10 — “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” —, o Rev. Leonardo Veríssimo propôs às famílias uma reflexão sobre o significado de vida abundante.
A mensagem apresentada não associou essa ideia a uma existência sem dificuldades, mas a uma vida marcada por propósito, cuidado, esperança e relacionamento com Deus mesmo em períodos adversos.
Outro texto utilizado foi 2 Coríntios 1:3-4, que trata da consolação recebida e posteriormente oferecida a quem atravessa sofrimento. A partir dele, o encontro relacionou fé, acolhimento e responsabilidade diante da dor do outro.
Pais que oram também precisam estar atentos
A proposta do Pais que Oram acrescenta uma dimensão à discussão: além de interceder pelos filhos, a comunidade de famílias é convidada a refletir sobre como a presença dos adultos pode contribuir para a construção de ambientes emocionalmente seguros.
A mensagem central da palestra — “Toda Vida Importa” — levou os participantes a olhar para crianças e adolescentes para além de notas, cobranças, expectativas e comportamentos.
O desafio é enxergar também a pessoa que existe por trás deles, com medos, emoções, conflitos e necessidade de pertencimento.
Para as famílias, isso não significa saber resolver todos os problemas dos filhos. Significa manter canais de comunicação abertos, reconhecer quando determinada situação ultrapassa aquilo que pode ser resolvido dentro de casa e não hesitar em procurar ajuda especializada.
Ao reunir espiritualidade, prevenção e saúde emocional, o encontro deixou uma mensagem que ultrapassa o Setembro Amarelo: cuidar da vida exige presença constante — e criar condições para que crianças e adolescentes saibam que não precisam enfrentar o sofrimento sozinhos.





