Mudanças de comportamento são os primeiros sinais de alerta para pais e educadores
Perceber o uso de drogas entre adolescentes nem sempre é fácil. Pelo contrário: como envolve algo proibido e carregado de julgamento, muitos jovens escondem bem. Mas o corpo e o comportamento sempre entregam alguma coisa. A chave está em observar. Quando um adolescente muda de comportamento de forma brusca, começa a se isolar, fica mais irritado, dorme demais ou quase não dorme, perde o interesse por coisas que antes gostava ou se torna negligente com a própria aparência, é preciso atenção.
Na escola, essa queda costuma aparecer também nas notas e na frequência. Já em casa, o adolescente pode se mostrar distante, explosivo ou introspectivo demais. Como explica Priscila Moraes, coordenadora da Escola do Futuro Brasil, esses sinais não aparecem do nada — e precisam ser levados a sério. O problema é que, muitas vezes, só se percebe o uso quando ele já está em um nível mais grave. O segredo é agir antes. E isso só acontece quando há diálogo, escuta ativa e vínculo entre o adulto e o adolescente. Em vez de focar no erro, o caminho é tentar entender o que está por trás da mudança. Julgar não ajuda. Acolher, sim.
O que leva o adolescente às drogas muitas vezes é mais emocional do que racional
A entrada nas drogas costuma acontecer por um motivo muito mais emocional do que racional. Curiosidade, pressão do grupo, vontade de pertencer, desejo de testar limites — tudo isso pesa. Mas, muitas vezes, o uso começa porque o adolescente está tentando lidar com algo que não sabe nomear: uma dor, um vazio, uma frustração. Pode ter a ver com baixa autoestima, conflitos familiares, medo de rejeição, insegurança ou solidão.
Nesses casos, a droga aparece como uma “fuga”, uma forma de lidar com aquilo que ele não consegue encarar sozinho. E quando não há adultos por perto com disposição para ouvir de verdade, sem criticar logo de cara, esse jovem se afasta ainda mais. O que poderia ser uma conversa vira silêncio. E o silêncio é o que alimenta o problema.
Segundo Priscila, é fundamental que o adolescente sinta que tem com quem contar. E que pode falar sobre seus medos, suas dúvidas, sem medo de ser punido. Isso não quer dizer que os limites desaparecem — mas que eles vêm junto com compreensão. Escutar com empatia é mais eficiente do que qualquer sermão. Quando o jovem se sente seguro para se abrir, ele tem mais chance de evitar ou interromper o uso.
Escola e família precisam caminhar juntas na prevenção e na construção do vínculo
O trabalho preventivo precisa acontecer em casa e na escola. E não é função exclusiva de uma ou de outra. Só existe verdadeira prevenção quando esses dois ambientes caminham juntos. Na escola, isso se traduz em projetos que desenvolvem a autoestima, o senso crítico e a habilidade de tomar decisões com responsabilidade. A Escola do Futuro Brasil, por exemplo, realiza atividades mensais voltadas ao desenvolvimento do caráter dos alunos, ajudando-os a compreender valores e fortalecer sua saúde emocional.
Já em casa, é papel dos pais estarem presentes. Isso não quer dizer controlar cada passo, mas sim construir uma relação de confiança. Estar por perto, observar as mudanças e, principalmente, conversar com frequência. E aqui vale um alerta: falar é importante, mas ouvir ainda mais. Muitos pais, ao entrarem na fase da adolescência dos filhos, continuam querendo apenas orientar, dar ordens, ensinar. Mas o que esse jovem mais precisa é ser ouvido — com atenção, paciência e sem julgamento.
Quando há essa escuta, o vínculo se fortalece. E um vínculo forte funciona como uma rede de proteção. Adolescentes que se sentem amados e valorizados têm muito mais força para dizer “não” às pressões externas. Porque sabem que pertencem a algum lugar. Que são vistos. E isso faz toda a diferença.
Acolhimento é o que mais protege e o que mais ajuda na recuperação
Diante de um possível uso de drogas, o que o adolescente mais precisa é de acolhimento. Não de broncas, ameaças ou vergonha. Claro, isso não significa ser permissivo. Mas significa olhar para aquele jovem como alguém que está em sofrimento, e não apenas como alguém que “fez algo errado”.
A reação inicial dos adultos costuma ser punitiva. Mas, em muitos casos, essa postura só afasta ainda mais. Um adolescente que sente que vai ser punido a qualquer custo dificilmente vai se abrir. Já quando ele percebe que será ouvido com empatia, mesmo que precise enfrentar consequências, ele confia mais.
É essa confiança que permite o resgate. Muitos jovens conseguem sair do uso de drogas porque tiveram ao lado um professor, um responsável ou um mentor que não os abandonou. Que acreditou neles, mesmo quando tudo parecia perdido.
Dados recentes mostram que o problema não é isolado. De acordo com a pesquisa PENSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), realizada em 2023 pela Fiocruz e IBGE, 13,3% dos estudantes do ensino médio já usaram alguma droga ilícita. É um número que preocupa — e que exige ação imediata. Ignorar os sinais, tratar o assunto como tabu ou responder apenas com punição são atitudes que só agravam o cenário.
O que protege o adolescente não é a rigidez. É a conexão. É o vínculo forte com adultos que o escutam e o ajudam a enxergar um caminho diferente. Por isso, mais do que vigiar, é preciso estar presente. Mais do que proibir, é necessário ensinar. E mais do que corrigir, é urgente acolher.




