Nova legislação reforça a responsabilidade de plataformas e impulsiona a educação digital entre famílias, alunos e educadores no Brasil
A proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital entrou em uma nova fase no Brasil com a chegada do chamado ECA Digital. A atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente adapta a legislação ao contexto online, impondo novas responsabilidades às plataformas digitais e ampliando a discussão sobre segurança na internet dentro das escolas e das famílias.
O tema foi destaque em uma palestra realizada na Escola do Futuro Brasil, conduzida pela advogada Adriana Toledo Zuppo, que abordou os principais desafios da sociedade conectada. Em entrevista, a especialista detalhou os riscos do ambiente digital, o papel da educação e como a nova lei pode contribuir para um uso mais seguro da tecnologia por crianças e adolescentes.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Qual é a importância de abordar a segurança digital com crianças e adolescentes no ambiente escolar?
A segurança digital deixou de ser um tema complementar e passou a ser essencial. Hoje, vivemos em uma sociedade conectada em diversos níveis, não apenas pelo celular, mas por uma série de dispositivos. Mesmo quando não estamos diretamente online, continuamos inseridos nesse ambiente. Por isso, é fundamental preparar crianças e adolescentes para agir com responsabilidade nesses espaços. A escola tem um papel estratégico nesse processo, pois contribui para a formação de cidadãos mais conscientes.
Quais são os principais riscos que os jovens enfrentam atualmente na internet?
Os riscos são variados e, muitas vezes, refletem problemas do mundo físico, porém com maior alcance. Entre eles estão a exposição excessiva de informações pessoais, o contato com desconhecidos, práticas de cyberbullying, golpes digitais e a participação em desafios perigosos. Além disso, há o uso excessivo das plataformas, que pode gerar dependência. O ambiente digital amplia esses riscos porque nem sempre há supervisão, e os perigos podem ser mais difíceis de identificar.
Como o uso consciente e ético da tecnologia pode ser incentivado desde cedo?
O primeiro passo é a conscientização dos adultos. Pais e educadores precisam entender o funcionamento básico das plataformas e seus impactos. A partir disso, é possível orientar crianças e adolescentes por meio de conversas abertas, exemplos do cotidiano e discussões sobre situações reais. O mais importante é reforçar valores como respeito, empatia e responsabilidade, que devem ser aplicados também no ambiente digital. Esse processo precisa ser contínuo e adaptado à idade.
De que forma a exposição nas redes sociais pode impactar a vida dos jovens?
A exposição sem consciência pode trazer consequências relevantes. Muitos jovens acabam desenvolvendo ansiedade, comparando suas vidas com a de outros usuários e buscando validação constante. Também existem riscos relacionados à privacidade e à construção de uma imagem digital que pode permanecer por muito tempo. Outro ponto importante é que muitas plataformas são desenvolvidas para estimular o uso contínuo, o que pode levar ao excesso e até à dependência.
Qual é o papel da família na orientação sobre segurança digital?
A família continua sendo o principal ponto de apoio. É fundamental acompanhar o uso da internet, estabelecer limites e manter um diálogo aberto. A supervisão deve ser entendida como cuidado e responsabilidade, não como invasão de privacidade. Além disso, orientar sobre o compartilhamento de informações e incentivar que os jovens procurem ajuda quando algo parecer estranho são atitudes essenciais. Quando há confiança, a proteção se torna mais efetiva.
Quais mudanças práticas o ECA Digital traz para a proteção de crianças e adolescentes?
O ECA Digital representa um avanço importante porque define responsabilidades para as plataformas digitais. Ele incentiva a criação de mecanismos de proteção por faixa etária, fortalece o uso de ferramentas de controle parental e estabelece regras mais claras sobre o uso da imagem de crianças e adolescentes. Também limita práticas como publicidade direcionada e reforça a importância da educação digital nas escolas. Na prática, isso contribui para um ambiente online mais seguro.
O ECA Digital é suficiente para garantir a segurança no ambiente digital?
A legislação é um passo fundamental, mas não resolve tudo sozinha. Ela cria uma base mais segura e estabelece regras importantes, porém o sucesso depende da participação ativa da sociedade. Famílias, escolas e empresas precisam atuar de forma conjunta. Nenhuma lei substitui o acompanhamento dos pais, o diálogo e a formação de valores. A proteção efetiva acontece quando todos esses elementos atuam em conjunto.
Qual é a mensagem final para crianças e adolescentes sobre o uso da internet?
A internet é uma ferramenta poderosa, que pode ser utilizada para aprender, se comunicar e se divertir. No entanto, é importante utilizá-la com responsabilidade. Proteger informações pessoais, pensar antes de compartilhar conteúdos e respeitar outras pessoas são atitudes fundamentais. E, sempre que algo parecer estranho ou desconfortável, o mais importante é procurar um adulto de confiança.
A ampliação do debate sobre segurança digital, impulsionada pelo ECA Digital e por iniciativas educacionais, reflete uma mudança no comportamento da sociedade diante da tecnologia. Mais do que impor regras, o desafio agora está em construir uma cultura digital baseada em responsabilidade, diálogo e presença ativa, garantindo que crianças e adolescentes possam aproveitar os benefícios da internet de forma segura.