Especialistas alertam que o uso sem mediação pode comprometer o aprendizado e a autonomia, mas defendem a IA como aliada quando há intencionalidade pedagógica
A inteligência artificial deixou de ser tendência para se tornar realidade no cotidiano escolar. Presente em pesquisas, produções de texto, traduções e até no apoio emocional, a tecnologia avança rapidamente entre crianças e adolescentes. Diante desse cenário, educadores enfrentam um desafio central: como evitar a dependência da IA e garantir que o estudante continue sendo protagonista do próprio aprendizado?
Para Priscila Moraes, psicopedagoga e coordenadora pedagógica da Escola do Futuro Brasil, o debate não deve girar em torno da proibição, mas do uso consciente. “A inteligência artificial não é o problema. O problema é quando ela substitui etapas essenciais da aprendizagem. O aluno precisa percorrer o caminho do pensar, do errar e do construir. É nesse processo que o cérebro se desenvolve”, afirma.
Na prática, os sinais de alerta já são perceptíveis em sala de aula. Trabalhos bem escritos, vocabulário avançado e organização impecável nem sempre refletem aprendizagem real. “Muitas vezes, o aluno entrega um texto bonito, mas não consegue explicar o que produziu. Quando pedimos para ele contar com as próprias palavras, ele trava. Isso mostra que o conhecimento não foi internalizado”, explica Priscila.
Informação não é conhecimento
O acesso rápido à informação pode criar uma falsa sensação de domínio. Segundo a coordenadora, há uma diferença crucial entre ter respostas e compreender um conteúdo. “A IA sempre responde, mesmo quando não sabe. Ela não diz ‘não sei’. Isso pode levar o aluno a acreditar que sabe algo que, na verdade, não compreendeu”, alerta.
Estudos recentes já indicam que o uso excessivo de inteligência artificial pode reduzir a ativação cerebral em tarefas cognitivas, como escrita e resolução de problemas. Para Priscila, isso reforça um princípio básico da educação: aprender exige esforço. “Pesquisar, comparar fontes, organizar ideias, errar e refazer são processos fundamentais. Quando tudo vem pronto, o cérebro não é estimulado”, diz.
Esse comportamento é potencializado pelo que ela chama de “caminho do menor esforço”. “O ser humano tende a buscar atalhos. A IA facilita isso. Por isso, a escola precisa ensinar o aluno a aprender, e não apenas entregar conteúdo.”
Metaaprendizagem e consciência cognitiva
Nesse contexto, a metaaprendizagem ganha destaque. Trata-se de ajudar o estudante a entender como o próprio cérebro aprende. “Sono, leitura, atividade física e limites no uso da tecnologia impactam diretamente a aprendizagem. Quando o aluno compreende isso, ele se torna mais consciente e menos dependente”, afirma Priscila.
Ela defende que esse conhecimento precisa ser compartilhado entre escola e família. “A escola orienta, mas quando a porta do quarto se fecha, é o aluno com ele mesmo. Sem consciência, ficamos apenas reagindo aos problemas.”
IA como aliada do professor e da inclusão
Apesar das preocupações, Priscila destaca que a inteligência artificial pode ser uma grande aliada da educação quando usada com intencionalidade pedagógica. Para os professores, o ganho de tempo é significativo. “Hoje, planejar aulas, localizar habilidades da BNCC e organizar estratégias ficou muito mais rápido. Esse tempo economizado pode ser investido no que realmente importa: pensar em metodologias e cuidar do aluno”, explica.
Para os estudantes, a IA também pode ampliar possibilidades, especialmente no campo da inclusão. “Ela permite adaptar conteúdos para alunos com TDAH, dislexia ou outras necessidades específicas, oferecendo diferentes caminhos de acesso ao conhecimento”, afirma. O ponto central, segundo ela, é ensinar o aluno a questionar, revisar e refletir sobre as respostas recebidas.
Avaliação em um novo cenário educacional
Com respostas prontas disponíveis em segundos, o modelo tradicional de avaliação também precisa ser repensado. “Avaliar apenas o produto final já não faz sentido. Projetos, oficinas, eventos culturais e atividades práticas permitem acompanhar o processo do aluno: planejamento, escolhas, colaboração e execução”, diz Priscila.
Ainda assim, ela reconhece que avaliações formais continuam sendo necessárias. “Os vestibulares ainda exigem esse modelo. O desafio é equilibrar avaliações tradicionais com experiências que desenvolvam habilidades humanas, como pensamento crítico, comunicação e trabalho em equipe.”
Privacidade, vieses e conexões humanas
Entre os riscos menos visíveis do uso da inteligência artificial na educação estão a privacidade de dados e os vieses algorítmicos. “Tudo o que é inserido em um sistema de IA pode ser utilizado para treinamento. Além disso, há respostas inventadas ou carregadas de preconceitos. Por isso, o senso crítico é indispensável”, alerta.
Mas a maior preocupação de Priscila está na substituição das relações humanas. “Hoje, quatro em cada dez crianças no Brasil já recorrem à inteligência artificial como companhia ou apoio emocional. Esses sistemas não julgam, e isso pode afastar crianças e adolescentes do diálogo com pais, professores e amigos.”
Na adolescência, esse risco se intensifica. “É uma fase de construção da identidade. Eles precisam de referências humanas reais e de ouvir, repetidas vezes, que há adultos disponíveis para escutá-los”, afirma.
O que a tecnologia não substitui
Para Priscila Moraes, há algo que nenhuma inteligência artificial consegue replicar. “Ela pode descrever um pôr do sol, mas não sabe o que é vivê-lo. Emoção, consciência, história e experiência são humanas. Isso não pode ser terceirizado.”
Em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos, o papel da educação é claro: usar a tecnologia como ferramenta, sem abrir mão daquilo que forma indivíduos críticos, conscientes e protagonistas do próprio aprendizado.





