Pequenos gestos, frases aparentemente simples e atitudes do cotidiano ajudam a moldar como meninos enxergam as mulheres — e isso pode influenciar profundamente as relações no futuro.
Há algo que a sociedade ainda precisa encarar com mais atenção: a forma como educamos os meninos desde a infância. O tema costuma voltar ao debate público quando algum episódio chama atenção. Nos últimos meses, por exemplo, dois acontecimentos amplamente comentados reacenderam essa reflexão. De um lado, uma escola decidiu expulsar dois alunos envolvidos em um caso grave de desrespeito contra uma jovem, situação que repercutiu na mídia. Em outro momento, durante um evento esportivo, um jogador foi criticado após desqualificar uma árbitra apenas por ela ser mulher.
Embora sejam episódios distintos, eles levantam uma pergunta importante: de onde surgem atitudes que diminuem ou desrespeitam mulheres?
A resposta, na maioria das vezes, não nasce de um único momento. Ela costuma ser construída ao longo da infância, em pequenas mensagens transmitidas em casa, na escola e nas relações sociais. Comentários, brincadeiras, exemplos de comportamento e até o modo como os adultos lidam com conflitos vão formando, pouco a pouco, a maneira como meninos aprendem a enxergar o outro.
Por isso, falar sobre respeito, empatia e convivência desde cedo não é apenas uma discussão pedagógica. É também uma forma de refletir sobre o tipo de sociedade que desejamos construir.
Como a infância molda a forma como os meninos enxergam o feminino
A psicopedagoga e coordenadora pedagógica da Escola do Futuro Brasil, Priscila Moraes, explica que muitas das ideias que influenciam o comportamento masculino começam a ser formadas muito cedo, às vezes de forma tão sutil que passam despercebidas.
“Realmente, a forma como educamos os meninos acaba refletindo ao longo de toda a vida adulta e vai compondo a sociedade que temos hoje. É uma sociedade que ainda é violenta com as mulheres, e muitas coisas acabam passando despercebidas”, afirma.
Segundo a educadora, parte desse processo acontece quando determinadas atitudes ou discursos que desvalorizam o feminino deixam de ser questionados no cotidiano. Ao longo da infância, meninos podem receber mensagens implícitas de que certos comportamentos, interesses ou emoções seriam inadequados apenas por estarem associados ao universo feminino.
Ela cita um experimento social que ilustra bem essa realidade. Em uma sala cheia de brinquedos tradicionalmente considerados masculinos, as meninas entravam e brincavam naturalmente. Já quando o ambiente era composto por bonecas e brinquedos associados ao universo feminino, muitos meninos demonstravam resistência até para permanecer ali.
“Isso vai sendo estabelecido ao longo da vida e faz com que os meninos cresçam com certa aversão ao que é feminino. Precisamos promover que eles respeitem e valorizem esse universo. Gostar de coisas consideradas femininas não é fraqueza”, explica.
Escola e família: o diálogo que constrói limites e respeito
Se a infância é o momento em que essas percepções começam a se formar, a escola se torna um espaço essencial para ampliar o diálogo. É ali que crianças convivem com diferentes realidades e aprendem, muitas vezes pela primeira vez, a lidar com limites e frustrações.
Na Escola do Futuro Brasil, segundo Priscila Moraes, o trabalho com respeito e convivência faz parte do cotidiano.
“Procuramos garantir um ambiente seguro para a escuta e reforçar que ninguém tem o direito de se colocar sobre o outro de forma amedrontadora ou desrespeitosa”, explica.
A instituição também criou espaços específicos de conversa para que os alunos possam compartilhar experiências. Entre as iniciativas estão rodas de diálogo com meninas, oferecendo um ambiente em que elas se sintam mais seguras para falar sobre situações vividas no dia a dia escolar.
Outro ponto importante, segundo a coordenadora, é a postura clara diante de episódios de agressividade. Ainda é comum que certos comportamentos sejam relativizados por adultos.
“Quando comunicamos alguma situação de agressão, alguns pais dizem que é ‘coisa de menino’. Nossa posição é firme: isso não é coisa de menino nem de menina. É desrespeito e não pode ser tolerado.”
Para ela, a parceria entre escola e família é essencial para que a criança compreenda os limites. Quando os adultos mantêm uma mensagem coerente sobre respeito, o aprendizado se torna mais consistente.
Educação emocional e empatia: bases para relações mais saudáveis
Outro ponto que vem ganhando espaço nas discussões educacionais é a importância da educação emocional. Ensinar crianças a reconhecer sentimentos e lidar com frustrações pode fazer diferença na forma como elas se relacionam ao longo da vida.
Priscila Moraes acredita que muitos homens enfrentam dificuldades justamente porque cresceram ouvindo que não deveriam demonstrar emoções.
“Durante muito tempo os meninos foram ensinados a segurar o choro, a não demonstrar fragilidade. Tudo isso vai sendo acumulado e, muitas vezes, aparece depois em forma de agressividade ou dificuldade de lidar com frustrações”, explica.
Aprender a nomear sentimentos e encontrar formas saudáveis de lidar com eles é uma habilidade que precisa ser construída desde cedo. Para Agnes T. F. Teixeira Lopes da Silva, educadora de práticas inclusivas da Escola do Futuro Brasil, esse processo começa nas atitudes mais simples do cotidiano.
“Ensinar respeito é ensinar que ninguém pode ser diminuído ou tratado com menos valor. Quando a criança aprende sobre empatia, limites e cuidado com o outro, ela entende que violência e preconceito não são aceitáveis”, afirma.
Segundo ela, família, escola e sociedade precisam caminhar juntas nesse processo. “Quando família e escola caminham na mesma direção, com diálogo e exemplo, a mensagem fica mais forte. E a sociedade também ajuda quando deixa de normalizar piadas ou falas que desvalorizam a mulher.”
A importância de ensinar igualdade também a partir da fé
Em muitos lares brasileiros, os valores espirituais também fazem parte da formação das crianças. Para Ivone Muniz, diretora da Escola do Futuro Brasil, essa dimensão pode contribuir para fortalecer uma visão de respeito e dignidade entre homens e mulheres.
Ela lembra que diversos ensinamentos bíblicos apontam para a importância de não fazer distinção ou acepção de pessoas. “Quando falamos de educação baseada em valores, é essencial lembrar que a própria Bíblia nos ensina a tratar todos com dignidade. Não devemos fazer acepção de pessoas, porque cada ser humano carrega valor diante de Deus”, afirma.
Segundo Ivone, o próprio ministério de Jesus apresenta exemplos claros dessa postura. Em uma época em que as mulheres tinham pouca voz na sociedade, Ele dialogou, acolheu e reconheceu a importância delas em diferentes momentos de sua caminhada.
“Jesus valorizou as mulheres em seu ministério de forma muito clara. Ele conversou com elas, ensinou, acolheu e deu espaço para que participassem da vida espiritual e comunitária. Esse exemplo nos mostra que respeito, dignidade e igualdade fazem parte do coração do Evangelho”, explica.
Para ela, quando crianças crescem compreendendo que todos merecem o mesmo respeito — independentemente de gênero — a convivência se torna mais saudável e justa.
No fundo, educar meninos para o respeito não significa apenas corrigir comportamentos inadequados. Significa oferecer referências que ensinem empatia, cuidado e responsabilidade nas relações humanas. E essa construção, silenciosa e constante, começa muito antes da vida adulta — começa na infância.





