O que os pais precisam entender antes de expor os filhos nas redes sociais
Basta uma passada rápida pelo feed para ver: crianças sorrindo, dançando, fazendo birra, dizendo frases engraçadas ou até participando de desafios. A intenção quase sempre é boa — registrar momentos, compartilhar alegrias, mostrar o quanto aquele pequeno ser é amado. Mas a pergunta que poucos se fazem é: até que ponto estamos pensando nas crianças ao publicar essas imagens? Será que essa exposição é um presente… ou uma invasão?
A prática tem nome: sharenting, a mistura de sharing (compartilhar) com parenting (criação de filhos). É um fenômeno que cresce ano após ano, com pais documentando a vida dos filhos desde o teste de gravidez até os primeiros tombos. Só que, quando expomos demais, criamos um rastro digital que não pertence à criança — e sim ao adulto que quer mostrar o filho ao mundo.
“Pais precisam refletir: isso é algo que meu filho escolheria mostrar?”, questiona Cris Poli, pedagoga e coordenadora da Escola do Futuro Brasil. Para ela, o desejo de registrar a infância não pode ultrapassar o direito da criança de viver sua história longe dos holofotes. “O amor verdadeiro protege, não exibe.”
Privacidade não é detalhe — é proteção
Quando postamos onde o filho estuda, o parque que frequenta, o nome completo ou até a rotina da família, estamos oferecendo informações preciosas a pessoas que podem não ter boas intenções. Pode parecer exagero, mas infelizmente não é. Uma simples imagem pode ser baixada, alterada, usada fora de contexto ou parar em sites que nenhum pai gostaria de visitar.
Em 2023, a Time publicou que 80% das crianças já tinham presença online antes dos dois anos. E em muitos casos, com informações sensíveis incluídas. Um relatório da NSPCC, organização britânica de proteção à infância, revelou que metade das imagens abusivas encontradas online tinham origem em perfis familiares.
“O ambiente virtual exige discernimento. É nosso dever proteger quem ainda não pode se proteger sozinho”, alerta Ivonne Muniz, diretora da Escola do Futuro Brasil. Para ela, o zelo pelos filhos também passa por aquilo que se compartilha. “A exposição sem propósito, mesmo que bem-intencionada, pode fragilizar emocionalmente e abrir portas para riscos invisíveis.”
Likes não substituem afeto real
Outro ponto pouco falado é o impacto dessa exposição na formação emocional da criança. Quando ela cresce sendo filmada, fotografada, comentada e curtida o tempo todo, pode começar a acreditar que seu valor depende da aprovação alheia. A infância, que deveria ser um espaço de liberdade e descoberta, passa a ser mediada por câmeras e expectativas.
“É como se a criança estivesse sempre em cena, mesmo sem saber”, comenta Cris Poli. “Isso interfere diretamente na construção da autoestima. O filho precisa saber que é amado no silêncio do lar, e não apenas na performance para a internet.”
Além disso, há o risco do constrangimento futuro. O que hoje é “fofo” pode se tornar motivo de vergonha quando a criança crescer. Muitos adolescentes relatam frustração ao descobrir que sua vida íntima foi transformada em conteúdo público sem autorização. E, nesses casos, o dano à relação entre pais e filhos pode ser irreparável.
Guardar também é amar
Não se trata de demonizar a tecnologia nem de dizer que pais não devem tirar fotos ou se orgulhar dos filhos. O ponto é: nem tudo precisa ir para a rede. Há registros que têm mais valor guardados com carinho do que espalhados para desconhecidos. E o que realmente importa na formação da criança acontece longe das telas — no vínculo, no olhar, na presença.
Publicar menos é, muitas vezes, um gesto de cuidado. De respeito ao tempo da infância. De proteção à identidade de alguém que ainda está se formando. Como diz Ivonne Muniz: “A infância é sagrada. Cabe a nós preservar o mistério, a espontaneidade e a liberdade desse tempo. Nossos filhos não são nossos seguidores — são nossos discípulos, nossos pequenos para quem devemos ensinar, inclusive, o valor da privacidade.”
Em vez de pensar no impacto de um post, talvez devêssemos pensar no impacto de uma lembrança. Daquelas que ficam entre pais e filhos, onde o afeto é vivido sem plateia. Porque há coisas que o coração guarda melhor do que qualquer feed.





