Inspirada no formato do programa “Shark Tank Brasil”, a escola investe em práticas que desenvolvem criatividade, autoconfiança e visão de futuro
A educação contemporânea enfrenta um desafio urgente: formar jovens capazes de pensar com autonomia, resolver problemas e lidar com um mundo marcado por mudanças rápidas, pressões emocionais e incertezas. Em um ambiente como esse, preparar adolescentes apenas para responder avaliações já não atende às necessidades reais de desenvolvimento. A escola, cada vez mais, precisa criar experiências que ajudem os estudantes a enxergar sentido no que aprendem, descobrirem suas próprias potências e fortalecerem habilidades socioemocionais essenciais.
O empreendedorismo entra nessa cena como uma das estratégias mais eficazes. Ele aproxima o aprendizado da vida real, estimula criatividade, protagonismo, resiliência e pensamento crítico — competências indispensáveis para qualquer área profissional. Além disso, oferece aos jovens a oportunidade de construir algo que nasce de suas próprias ideias, algo que carrega identidade, propósito e visão de futuro. E, em meio a um cenário em que tantos adolescentes lidam com ansiedade, insegurança e excesso de cobranças, vivências práticas que valorizam suas vozes têm efeito terapêutico: devolvem confiança, pertencimento e motivação.
Foi com esse entendimento que a Escola do Futuro Brasil implementou um projeto marcante dentro da disciplina de Empreendedorismo e Inovação com os alunos do 8º e 9º ano. Inspirada no formato do programa “Shark Tank Brasil”, a proposta foi conduzida pela professora Bárbara Ortiz, sob orientação da coordenadora de Tecnologia Educacional, Fumi Hoshino. “Nossa intenção era aproximá-los de um ambiente real de negócios, oferecendo uma vivência significativa e capaz de despertar o espírito empreendedor”, afirma Fumi. A iniciativa convidou os estudantes a desenvolverem suas “empresas dos sonhos”, colocando em prática conceitos estudados e fortalecendo os traços de caráter que guiam a formação da escola.
Processos que transformam: pesquisa, criatividade e superação emocional
A jornada empreendedora começou com uma pergunta simples, mas essencial: “Se eu tivesse um negócio que refletisse meus sonhos, qual serviço eu ofereceria?”. A partir daí, os grupos mergulharam em pesquisa, levantando público-alvo, custos, projeções de lucratividade, estratégias de divulgação e diferenciais competitivos. Era preciso unir imaginação e lógica, desejo e responsabilidade. Não bastava ter uma boa ideia; era necessário estruturá-la com consistência e sensibilidade.
Com os conceitos definidos, veio a etapa mais visual: criação de logotipos, protótipos e construção dos argumentos que seriam apresentados no pitch final. As semanas que antecederam a apresentação foram intensas. Nervosismo, ensaios, revisões de cálculos e treinamentos de oratória fizeram parte do cotidiano dos estudantes. “Essa atividade nos permitiu trabalhar habilidades matemáticas e financeiras, comunicação oral e escrita, persuasão e responsabilidade social de maneira integrada”, explica Bárbara Ortiz.
Mas o aprendizado mais profundo não estava apenas nos números e estratégias. Ele se revelava na postura, na capacidade de ouvir o grupo, nas discussões necessárias para reorganizar ideias e na paciência diante das divergências. Foram momentos que exigiram humildade, colaboração e resiliência — traços de caráter que acompanharam todo o processo. Fumi reforça esse ponto: “Queríamos que eles entendessem que empreender exige valores sólidos. Não basta criar um produto; é preciso agir com integridade”.
O ápice do projeto foi o pitch final diante de uma banca composta por professores de diferentes áreas, membros da coordenação, profissionais do setor administrativo e o professor de matemática, que avaliou a coerência financeira. A limitação de tempo para apresentar exigiu clareza e confiança, levando muitos estudantes a enfrentarem pela primeira vez o desafio de defender publicamente algo que eles próprios tinham criado. “O aprendizado sobre postura, argumentação e tranquilidade diante das perguntas foi extremamente significativo”, comenta Fumi.
Projetos que emocionam pela criatividade, impacto social e visão de futuro
As apresentações revelaram ideias surpreendentes e carregadas de propósito. A “Maison de Gateau”, criada por alunos do 8º ano, conquistou a banca pela organização impecável dos custos, pela clareza das projeções financeiras e pela comunicação envolvente. Outro projeto marcante foi o “Mãos que alimentam”, também do 8º ano, que propôs a venda de um selo “Empresa Cidadã” para arrecadar fundos destinados à segurança alimentar e educação de qualidade para pessoas carentes da comunidade. “A proposta dialoga diretamente com nossos princípios cristãos e com os traços de caráter trabalhados ao longo do ano”, destaca Fumi.
Do 9º ano, o “Açaí da Iracema” valorizou a cultura brasileira ao apresentar um produto orgânico com toppings regionais, inspirado na obra de José de Alencar. A originalidade e a promessa de agilidade no serviço chamaram atenção. Já o “Lollo’s”, focado em cookies artesanais pensados para atender intolerâncias alimentares e pessoas diabéticas, destacou-se pelo domínio completo do processo produtivo e pelas amostras deliciosas apresentadas durante o pitch.
Os feedbacks oferecidos pela banca ensinaram aos estudantes a importância de conhecer bem o público-alvo, revisar cálculos, ajustar estratégias e comunicar com clareza. Eles perceberam que empreender é um processo contínuo de aprimoramento e que grandes ideias dependem tanto de propósito quanto de disciplina.
No fim, os jovens saíram fortalecidos. Em um momento histórico em que desafios emocionais e materiais se acumulam, vivências como essa devolvem o senso de potência e futuro. Os estudantes descobriram que suas ideias têm valor e que eles são capazes de transformar sonhos em impacto real. E, talvez, este seja o maior legado educacional de um projeto como esse.





