Educação da escola e família: relação dos jovens com a inteligência artificial no aconselhamento

Como a inteligência artificial vem influenciando a forma como adolescentes buscam orientação e o papel essencial da escola e da família nesse cenário

Vivemos um tempo em que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma tecnologia de apoio para se tornar, em muitos casos, uma companhia diária. O que antes parecia coisa de ficção científica hoje é realidade: jovens recorrem a chats de IA para conversar, pedir conselhos e até compartilhar segredos. Uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos em 2023 revelou que mais da metade dos adolescentes entrevistados interage com bots virtuais de forma regular, e 31% afirmaram que essas conversas chegam a ser tão ou mais satisfatórias do que com amigos humanos. Esse dado revela algo profundo sobre a geração atual: o desejo de ser ouvido sem julgamentos.

No Brasil, a tendência também ganha força. Um levantamento recente mostrou que 1 em cada 10 brasileiros já utiliza chats de IA como conselheiros ou confidentes. Isso significa que, em muitos lares, jovens estão descobrindo um novo tipo de escuta que não vem de pais, professores ou amigos, mas de uma máquina treinada para responder com empatia simulada. Há, ao mesmo tempo, encantamento e risco. A educadora e coordenadora da Escola do Futuro Brasil, Cris Poli, alerta: “A educação começa em casa, com diálogo e limites claros. A tecnologia pode apoiar, mas nunca substituir o olhar humano”. Essa reflexão é um convite para pensarmos em como a família deve se posicionar diante dessa mudança: não como oposição, mas como guia que ensina os filhos a usar com responsabilidade aquilo que já faz parte do mundo deles.

Entre a confiança nos humanos e a atração pelo digital

Apesar do crescimento do chamado “afeto artificial”, as pesquisas mostram que ainda há um fio de confiança que prende os jovens ao aconselhamento humano. Um estudo global, que ouviu 97 mil pessoas em 48 países, destacou que, embora a IA seja uma tendência crescente para buscar informações, a maioria ainda prefere recorrer a professores, especialistas ou jornalistas quando o assunto envolve credibilidade. Essa ambiguidade revela bem o espírito da geração: aberta ao novo, mas consciente de que há riscos em entregar a intimidade a um sistema que pode não ter responsabilidade ética ou compromisso com a verdade.

No entanto, a sedução da IA é real. Entre adolescentes da Geração Z, 83% acreditam ser possível criar um vínculo emocional profundo com inteligências artificiais. Muitos afirmam que conversar com um robô traz sensação de segurança, principalmente para quem lida com timidez ou medo de julgamento. Para esses jovens, a ausência de crítica é um alívio. Mas, como lembra Cris Poli, “o papel da família é ensinar que segurança não é ausência de confronto, e sim presença de amor. É no diálogo humano que aprendemos a lidar com frustrações e a crescer”. A fala dela é um contraponto importante: ao contrário das respostas suaves e padronizadas de uma IA, os conselhos de pais e educadores carregam experiência de vida, e é justamente isso que os torna insubstituíveis.

O papel da escola e da família diante da inteligência artificial

A questão não é apenas tecnológica, mas cultural e educacional. Escolas e famílias precisam trabalhar juntas para preparar os jovens não só para usarem a IA de forma crítica, mas também para compreenderem seus limites. Quando um adolescente decide desabafar com um chatbot em vez de com seus pais, isso pode revelar uma lacuna de confiança. 

Significa que o ambiente familiar, por vezes, não tem oferecido o espaço de escuta de que ele precisa. É aqui que entra o alerta de Cris Poli: “Os filhos não precisam de pais perfeitos, mas de pais presentes. O adolescente que sente que pode falar em casa, que é ouvido com atenção, terá menos necessidade de buscar fora a validação que não encontra dentro”.

No espaço escolar, o desafio é semelhante. Professores são constantemente citados por jovens como figuras de confiança, e isso abre caminho para que a escola seja também um espaço de educação digital. Ensinar os alunos a refletirem sobre o que uma IA pode ou não oferecer é um exercício de cidadania. Não basta mostrar como a tecnologia funciona; é preciso mostrar como ela deve ser usada. E, nesse ponto, escola e família precisam estar alinhadas, transmitindo a mensagem de que a inteligência artificial pode ser uma ferramenta, mas nunca um substituto para relações reais.

Reflexão final: conselhos que moldam o futuro

O fenômeno da relação dos jovens com a inteligência artificial no aconselhamento não pode ser ignorado, mas também não deve ser encarado com pânico. Trata-se de uma oportunidade para repensarmos como estamos nos comunicando dentro de casa e nas escolas. Se adolescentes estão encontrando conforto em máquinas, talvez seja porque ainda não se sentem suficientemente acolhidos em seus ambientes reais. A boa notícia é que isso pode mudar. O chamado não é apenas para pais e educadores, mas para toda a sociedade. Precisamos abrir espaço para diálogos mais honestos, onde as dores e dúvidas da juventude não sejam ridicularizadas, mas acolhidas.

O desafio é equilibrar os mundos. A IA pode ser uma aliada no aprendizado, na organização e até no apoio inicial em momentos de solidão. Mas ela não substitui um abraço, um olhar atento, uma palavra firme de quem ama de verdade. Como resume Cris Poli: “A tecnologia é fascinante, mas o que transforma o ser humano é o relacionamento humano. É no encontro de gerações, na troca de experiências e no cuidado mútuo que formamos jovens preparados para enfrentar o mundo”. Essa é a chave: usar o que a modernidade oferece, mas sem esquecer que, no fim, são os laços de carne e osso que nos sustentam.

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