Um alerta sobre os riscos que muitos pais ainda subestimam
O vape pode até parecer inofensivo à primeira vista — pequeno, colorido, com cheiro adocicado. Mas por trás da aparência moderna e dos sabores chamativos, há um problema sério de saúde pública crescendo no convívio social, nas redes sociais e até nos quartos dos adolescentes, sem que alguns pais tenham ciência. O cigarro eletrônico, ou vape, se espalhou com força entre os jovens, amparado por um discurso enganoso: o de que é menos prejudicial que o cigarro convencional.
Segundo pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), divulgada em 2023, 8,7% dos adolescentes brasileiros entre 14 e 17 anos afirmaram ter usado cigarros eletrônicos no último ano. Esse número é mais de cinco vezes maior do que o uso do cigarro tradicional entre a mesma faixa etária. A combinação entre acesso fácil — mesmo sendo proibido pela Anvisa desde 2009 —, influência de colegas, propaganda disfarçada nas redes sociais e a ideia de que é “só vapor” tem sido combustível para essa epidemia silenciosa.
Muitos ainda acham que vape é uma moda passageira, mas a verdade é que estamos falando de um dispositivo que entrega nicotina e outras substâncias tóxicas diretamente para o organismo em formação dos adolescentes. E isso tem consequências.
O que o corpo sente, mesmo sem o jovem perceber
Diferente do cigarro tradicional, o vape não deixa cheiro, não deixa cinzas, não amarela os dedos, o que dificulta a percepção do uso por pais ou parentes. Essa aparência “limpa” é o que mais engana. Mas o que entra no corpo do adolescente não é inocente. A nicotina presente no líquido inalado — muitas vezes em doses até maiores do que num cigarro comum — é altamente viciante. E quando associada a outros componentes químicos presentes nos cartuchos, o efeito é ainda mais nocivo.
A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta que o uso desses dispositivos pode causar doenças respiratórias, problemas cardiovasculares e até câncer, além de favorecer o surgimento de quadros de ansiedade, distúrbios do sono e alterações no humor. Como se não bastasse, há ainda o risco de explosões. Já foram registrados casos de dispositivos que pegaram fogo em bolsos, mochilas e até no momento do uso, causando queimaduras graves.
Nos Estados Unidos, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) apontou, em 2022, mais de 2.800 casos de lesões pulmonares associadas ao uso de vapes, sendo a maioria entre jovens. No Brasil, embora os números ainda estejam em consolidação, já é consenso entre médicos e educadores: estamos atrasados na conscientização.
Cérebro em desenvolvimento e os efeitos invisíveis da nicotina
Durante a adolescência, o cérebro passa por uma fase intensa de amadurecimento. Áreas responsáveis por tomada de decisões, autocontrole e processamento emocional ainda estão em construção. A introdução da nicotina nesse processo pode alterar rotas que são fundamentais para a formação de um adulto saudável.
A Organização Mundial da Saúde já afirmou que a exposição à nicotina nessa fase pode provocar alterações cognitivas permanentes, dificultando a aprendizagem, reduzindo a concentração e aumentando a propensão à impulsividade. Estudos também mostram que adolescentes que usam vapes têm até três vezes mais chance de migrar para o cigarro comum e outras substâncias ao longo da vida.
Essa escalada preocupante costuma acontecer de forma silenciosa. Muitas vezes, o jovem começa usando “por curiosidade”, depois se vê preso ao hábito e à dependência. E, quando os pais percebem, já não se trata mais de uma simples conversa, mas de uma luta contra a negação, o medo e a culpa.
Como proteger os adolescentes: vínculo, escuta e presença verdadeira
Mais do que fiscalizar mochila ou proibir saídas, o que realmente faz diferença é o vínculo. E esse vínculo se constrói com escuta, presença e abertura para o diálogo. Não é só sobre dizer “não use”, mas sobre estar disponível para ouvir, entender o que está por trás daquele comportamento, e ajudar o jovem a construir consciência e segurança.
Priscila Moraes, coordenadora da Escola do Futuro Brasil, resume isso com clareza: “A base de qualquer prevenção está no vínculo. Em vez de focar no erro, o caminho é tentar entender o que está por trás da mudança. Julgar não ajuda. Acolher, sim. O adolescente precisa saber que tem um adulto com quem pode contar, alguém que escuta de verdade, sem interromper, sem ironia, sem comparações”.
As escolas também têm um papel importante nesse processo. Iniciativas de educação preventiva, rodas de conversa, ações com profissionais de saúde e envolvimento da comunidade escolar podem fortalecer os laços de confiança e oferecer um ambiente seguro para discutir esses temas.
Já o Estado precisa ser mais eficaz na fiscalização e nas campanhas públicas. A proibição da venda de vapes não basta se a internet continua oferecendo livre acesso. É preciso investir em informação, políticas públicas específicas para adolescentes e ações firmes contra o comércio ilegal.
Proteger nossos jovens exige um esforço conjunto. Família, escola, sociedade e governo têm responsabilidades que se cruzam. Mas tudo começa com uma escuta verdadeira. Porque, no fundo, o que o adolescente mais precisa não é de mais regras — é de sentir que não está sozinho.




